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Eterno Aprendiz:
No silêncio, o olhar fala alto - 23/7/2010
Fernando Siqueira

Quando o escritor Gibran Kahlil Gibran – profeta do Líbano citou, no começo de uma de suas crônicas “No semblante do animal que não fala, há todo um discurso que somente um espírito sábio pode realmente entender”, certamente deve ter visto muitas vezes o olhar de um animal – um cão, um gato, mesmo um cavalo ou uma ovelha, com os olhos sedentos de amor.

Qualquer de nós gostaria de saber a linguagem dos animais para entendê-los de quando em vez, aproximar-se deles, consolando-os e respondendo a sua simpatia.

Certa feita, qual prenúncio de fim de vida, uma ovelha estava cabisbaixa no fundo da cocheira, sem comer ou beber, passando ao largo dos cochos de água e do capim verde, sempre convidativo e apetitoso. Muitos já testemunharam fatos assim.

Um cavalo sempre manso, no piquete pastando perto de um córrego quando sozinho em seu canto fica arredio e ao perceber a chegada de uma pessoa com o cabresto às mãos vira-lhe as costas e sai sentido oposto, às vezes trotando ou correndo.

O gato, fiel ao dono que elegeu, o amigo inseparável, de quem absorve todo o mal olhado e as más e pesadas cargas, entristece ao sentir que o seu amo está sobrecarregado.

Já os cães, por mais que o dono os desprezem, eles saem, dão uma voltinha e voltam abanando o rabo, simplesmente por lhes ser dada a oportunidade de estar próximo.

Não faz muito vi uma cadelinha nos estertores, mal de saúde, desfigurando-se, perdendo força muscular a cada momento. Estava chegando o fim de sua vida - que não era longa -, não segurava alimento algum no estômago e água sequer bebia; os rins funcionavam com pequena capacidade. Forças inexistiam e sua musculatura se deteriorava, cambaleante. Os olhos expressavam cansaço e as pernas não a sustentavam. Náuseas, vômitos se seguiram depois de uma infecção intestinal. A alimentação, contudo era necessária, para tentar melhorar o seu estado físico. Apetite, nenhum. Numa seringa colocava-se uma papinha - 20 cc por vez – e na boca aberta a muito custo introduzia-se a comida, forçando a natureza. Com a água assim se dava igualmente. E, duas vezes por dia, injeções contra dor e vômito. Dava pena.

Dias, semanas, mais de um mês e aquela carinha do animal expressava uma oração - um discurso sofrido – pedindo algo, suplicando para viver mais. Poucos entendiam. Porém, depois de desenganada, com dia certo para o seu sacrifício, a morte anunciada, ela deu uma arribada (como se diz na gíria interiorana) e com muitos litros de soro, reanimou-se, quase por milagre, não fosse a dedicação de profissionais que a acompanharam com presteza.

O silencioso discurso de seu semblante às vezes dava a entender que o animal queria viver e foi justamente isso que expressou o olhar da cadelinha, sempre alegre, companheira da casa e de algumas viagens, sem jamais importunar, serelepe como sempre e que adora um biju de beira de estrada.

As mãos quentes de sua dona levaram-lhe um calor maternal, sufocando suas dores; a ração que alimenta crianças desnutridas substituiu a ração animal, chazinhos de folhas secas e ervas revigoraram as suas forças, e de repente foi-se refazendo o animal, a cadelinha que reviveu, escapando do sacrifício, recuperando-se, não se sabe até quando. Mas, vale a pena entender o discurso de qualquer animal, o olhar indefeso, clamando por amor e respeito.

Com os homens é – ou pelo menos deveria ser – assim, também. Mas o egoísmo, o orgulho e o desamor o impedem.

Fernando Siqueira



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