Quanto é sentida por todos nós a falta da presença de amigos ou parentes que se vão para sempre. A morte é algo que todos sabemos virá, que faz parte de nosso futuro. Mas esta certeza não diminui o sofrimento em relação aos amigos, parentes que sobem para outros níveis.
Nos preocupamos com aspectos dos mais diversos, da alma às coisas práticas...formalidades, orações, seguros, jazigos, caixões, tudo para que os que ficam tenham recursos e forças para continuar a vida...os ritos religiosos,...as flores...a presença de amigos e parentes... a lágrima nos olhos dos que sentem a falta e que tiveram amizade ou amor pelo ente que se foi.
O ritual exige respeito, homenagem, veneração religiosa para que a alma tenha o caminho certo, e a presença do corpo para nos lembrar de nossa fragilidade e vulnerabilidade, também na união de sentimentos de amigos, para que a energia e apoio de todos auxiliem os parentes mais próximos a vencer essa etapa; respeito, sentimento, lágrimas, lembranças, tudo se enovela e vem em nossa garganta para nos tirar o fôlego e as palavras. Momento de circunspecção e constrição...
Em qualquer lugar do mundo existe o respeito pelos que se vão; a crueza do momento do enterro é minimizada pela emoção, os locais que vão receber aqueles a quem amamos geralmente são limpos, simples, com cuidados ornamentais e beleza, alguns até com certa ostentação ,com campas,túmulos em mármores,estátuas, pois os parentes querem mostrar a importância e respeito aos seus familiares mortos...tudo justificável, pois são homenagens...vamos sempre voltar para reverenciar, para uma oração, para uma lembrança, para uma lágrima...
Em qualquer lugar do mundo, não...Parece que nossa Ilhabela gosta de ser diferente...
Estive no velório de um amigo...personalidade que contribuiu por muitos anos com a cidade, empresário, amigo de muita gente, personalidade que fez diferença na sociedade pela sua energia, pela sua alegria, pelo seu jeito especial de ser...Emoção de todos em seu velório, parentes e amigos...emoção pura e sincera de tanta gente...merecia o carinho dos amigos, a reverencia dos que conviveram com ele...mas, contraste total... quem chegava ao cemitério via um espaço público mal cuidado...muro com falhas na pintura, caiação em cima de caiação, letreiros de identificação com falhas e de uma rusticidade estranha para uma cidade de artistas e bom gosto.
Internamente as campas com identificação feita a pincel, a mão, provavelmente por alguém semi alfabetizado, com letras mal feitas, em cores diferentes, de qualquer jeito e formato, reboco solto, mal cuidado, sem qualquer padrão. A maioria das campas sem nada, umas poucas com azulejos de segunda qualidade, diversas cores...algumas com inscrição feita pelo prego de um pedreiro, outras com dupla identificação...
Cidade linda, praias , paisagens...quem se preocupa com beleza,com valorização da natureza, não tem a mesma preo-cupação com nosso cemitério? Quanto custará repintar -com qualidade- os muros e colocar identificação externa correta e adequada? Quanto custará padronizar as campas, sua identificação, fazer novo reboco, criar um novo visual...Ninguém deseja decoração especial, pomposa.
Nossos mortos merecem respeito espaço correto, limpo, cuidado, esmero. Quando enterramos nossos mortos sofremos muito. Quando visitamos sua nova morada, para orar, reverenciar, devemos estar em ambiente que ajude na homenagem, no recolhimento , no pensar sozinho. Olhando ao lado não podemos ficar com nossa mente - que deveria estar vagando em níveis altos - observando o descaso, o espaço descuidado, ficando no nosso âmago a idéia que oferecemos menos do que eles mereceram, que estamos devendo a eles e que não demos importância às suas vidas.
Ilhabela deve respeito a seus mortos...Poucos investimentos e muita sensibilidade das autoridades é o que se exige...Nossos mortos e seus parentes e amigos agradecem...