Ontem, logo cedo, seu Biditinho Tapioca, velho amigo caiçara lá da Ponta do Rabo Azedo, veio contando que meu tio-avô Casimirus ficou fulo da vida quando soube que criadores de salmão em cativeiro utilizam uma gororoba na ração que é fornecida para esses peixes, visando deixar sua carne bem cor de rosa, aquele rosa-salmão que todos conhecemos. Tal gororoba é feita à base de derivados de petróleo.
– Mas rapaz, seu Casimirus ficô injuriado, biste?! Olhe que eu conheço a ele faz um tempãum e nunca bi o homem tãum vravo.
Dona Elzbieta, minha vovó lituana, atesta:
– É verdade! O salmão criado em cativeiro tem a carne esmaecida, acinzentada. Só os salmões de alto mar – que muito raramente chegam aos mares do Brasil – possuem aquela cor linda, característica.
A tecnologia na pesquisa dos aditivos evoluiu a ponto de transformar um peixe de cor pálida em um alimento convidativo. A transformação se dá graças a aditivos chamados astaxantina e cantaxantina, obtidos a partir do petróleo.
Derivado de petróleo... A gente comendo sashimi de salmão, a três por quatro, crente que está ingerindo um alimento super natural e saudável...
O quá!...
Só não estou entendendo uma coisa. Porque tio Casimirus ficou tão bravo, se ele nunca fez a mínima questão de comer salmão, algo que ele vive chamando de peixe de grão fino.
Aí que está: é que o mesmíssimo produto artificial utilizado para deixar o salmão de cativeiro com cor de salmão – as tais astaxantina e cantaxantina – também é usado na ração das galinhas criadas em cativeiro, para deixar – vejam vocês... – a gema do ovo mais amarela, com cara de mais nutritiva, o que não passa apenas e tão somente de uma impressão visual...
Tio Casimirus – que, feito um gambá, é doido, doido, doido por ovo – chegou a espumar e soltar fogo pelas ventas quando soube que as gemas amarelinhas que ele tanto gosta são turbinadas à base de derivados de petróleo...
A idéia do uso de aditivos nos alimentos é fazer com que eles se pareçam o máximo possível com o produto original, e, de quebra, que essa artificialidade se conserve por longos meses.
Praticamente não existe alimento industrializado livre de ingredientes químicos, criados em laboratórios – com funções de conservar, realçar artificialmente o sabor ou colorir os alimentos –, e cujos nomes figuram em letras bem miudinhas nos rótulos das embalagens, o que não ocorre no caso do salmão e dos ovos...
Boa parte dos aditivos alimentares é inócua à saúde, é verdade. Mas alguns deles – como os encontrados em presuntos, salames e mortadelas –, além dos nomes esquisitos, podem ter efeitos perigosos. Os nitritos e nitratos de sódio – usados para retardar a deterioração dos alimentos – podem provocar câncer no estômago se ingeridos em grandes quantidades e durante um longo tempo. Eles só entram na composição dos alimentos porque são usados em dosagens baixíssimas. Mas este escriba não é besta de confiar nessa segurança preconizada pela indústria. Comer em excesso e com freqüência alimentos desse tipo faz mal à saúde e isso é comprovado, ali, preto no branco, sendo que nem sempre a indústria se preocupa em informar a parte ruim.
O beta-caroteno – presente, por exemplo, no tempero em pó do macarrão instantâneo, os miojos da vida – dá cor ao produto. No organismo, converte-se em vitamina A e, nesse caso, faz bem à saúde. Mas, nesse mesmo pozinho com beta-caroteno do macarrão, existem também substâncias tóxicas em baixas proporções. Os estranhos glutamato monossódico, iosinato dissódico e guaniltato dissódico, são realçadores de sabor chapados de sódio, mineral que ameaça a saúde dos hipertensos. Num único pacote desse alimento semi-pronto, o consumidor ingere cerca de 90% do limite máximo de sódio para um dia. Dois pacotinhos estouram, de longe, a cota máxima.
É para as crianças – o público mais sensível ao que é artificial – que o mercado de corantes e aromatizantes trabalha a todo vapor. Nos chicletes, doces, bombons e balinhas, estão os corantes mais fortes. O potencial de tais produtos provocarem alergia é cumulativo e depende de cada um. Uma criança pode ter uma reação depois da primeira balinha colorida, pode desenvolver alergia depois da centésima, ou nunca ter nada.
Existe um corante em especial, o amarelo tartrazina – encontrado em balas e chicletes de cor amarela –, que está sob constante ameaça de sair do mercado de uma vez por todas. O produto, totalmente sintético, apresentou indícios de ser cancerígeno, embora os estudos realizados sobre o corante não tenham sido taxativos quanto ao risco que ele oferece à saúde. Como precaução, água benta e dinheiro no banco nunca fizeram mal a ninguém, é bom não dar aos pequerruchos produtos muito coloridos, especialmente de amarelo.
Mas como falar em poluição ambiental em um país, como o nosso, onde milhões passam fome todo santo dia?
Biditinho Tapioca nunca entraria nessa barca furada dos alimentos impregnados de produtos químicos. Embora tenha passado dos 80 anos, ele tem sua roça – onde planta, entre outros, feijão, mandioca, chuchu, abóbora, milho –, uma pequena horta e uma criação de galinhas. Claro que o peixe e frutos do mar são uma constante na mesa de seu Bidito.
Como energia elétrica sempre foi – e até hoje é – coisa rara nas comunidades caiçaras, foram criados mecanismos naturais para a conservação dos alimentos colhidos na natureza, tendo como base principalmente a técnica da salga.
Já a comida caiçara tem por essência a simplicidade, exatamente em virtude da dificuldade na obtenção dos produtos que não são cultivados pela própria comunidade.
Por isso, quando a gente vê uma receita típica caiçara – o azul-marinho, um peixe ensopado acompanhado por pirão à base de banana verde – levando “manteiga, azeite de oliva, salsinha, alho e pimenta do reino”, de pronto percebe que o cozinheiro pode entender de muita coisa, mas entende de culinária caiçara o mesmo tanto que seu Miditinho é bambambam em física quântica...
E vamos em frente porque, como lembra dona Elzbieta, da escola da vida não há como tirar férias.