Em 30 anos de perambulações pelos tépidos mares do litoral norte, este escriba teve a oportunidade – privilégio mesmo – de ver um bocado de coisas inesquecíveis.
Foram muitos os lobos e elefantes-marinhos; pingüins de várias espécies, diversas “raças” de baleias, incontáveis botos e toninhas (espécies de golfinhos), cardumes de grandes raias-chita, nadando com a ponta das "asas" saindo pra fora d'água, impressionantes mantas (grandes cardumes boiados na superfície) de tainhas, paratis, xareletes e manequinhos, dóceis raias-jamanta, maiores do que um fusca, bailando com incrível suavidade e com suas bocarras abertas, sorvendo plâncton. Até um tornado marinho – que o caiçara chama de bomba d'água –, um fenômeno pra lá de raro, este escriba já teve a oportunidade de avistar ao largo da Enseada das Enchovas, a caminho da praia do Bonete, no extremo sul de Ilhabela, o arquipélago mais cheio de perequeté e encantos do planeta azul.
Na bocaina (barra sul do canal de São Sebastião, cujo nome original é canal do Toque-Toque), um bando enorme de golfinhos – com mais de mil animais – deu até medo. Próximo à ilha dos Búzios, no nordeste do arquipélago, uma baleia com metade do corpo acima da superfície, para enxergar melhor o barco se aproximando, foi de fazer cair o queixo. Um imenso cardume de bonitos (espécie de peixe de mar aberto que tem a carne vermelha como o atum) feito azougue em meio à ardentia (milhões de invertebrados marinhos que brilham em noites de luar) foi coisa de tirar o fôlego, durante uma pescaria noturna de sardinha.
Mas rapaz, tubarão grande nunca vi, não, biste?! Anos e anos de mergulhos, pescarias e trabalho junto às comunidades tradicionais caiçaras renderam, quando muito, encontros fortuitos com algumas cambebas (cações-martelo) e alguns machotes, que é como são chamados os tubarões quando pequenos.
Mas, afinal de contas, qual seria a diferença entre cação e tubarão?
Segundo a explicação do seu Biditinho Tapioca, velho amigo caiçara lá da Ponta do Rabo Azedo:
– Seu Nibardo, quando bocê come a ele, é caçãum. Quando ele come a bocê, é tubarãum".
Resumindo: é tudo a mesma coisa; tanto faz como tanto fez.
Segundo aqueles que entendem do riscado, a chance de um ataque de tubarão em águas litoralnortistas é de uma em 300 milhões. A possibilidade de um caboclo ser atingido por um raio é na base de uma chance para 1 milhão.
Medo de tubarão? O quá!...
Pode acontecer... Na década de 90 um golfinho – o Tião, lembram-se dele? – matou um turista abusado em Caraguatatuba, depois que o babaca tentou enfiar palitos no orifício por onde o animal respira. Uma cabeçada bem dada pelo Tião – que era mansinho e enturmadésimo com as pessoas – foi suficiente pra despachar o caboclo pros quintos dos infernos. É dando cabeçadas que os golfinhos colocam os tubarões pra correr, chegando mesmo a matá-los.
Ataque de tubarão, porém, nunca pintou por estas bandas. Em centenas e centenas de horas de navegação, nunca vi sequer uma galha de tubarão rasgando a superfície, embora seja certo que os tubarões freqüentem nossas águas.
Não testemunhei, mas um grande tubarão-baleia andou rondando pela região, há coisa de uns 15 anos. Um delegado ilhéu chegou a sair armado de escopeta, à caça do bicho, que é inofensivo toda vida...
É por estas e outras que receio – receio, não medo – a gente tem que ter mesmo é de pindá (ouriço do mar), raia treme-treme (que fica no fundo do mar e dá um baita choque nos pés do infeliz que pisa no animal), caravela, certos tipos de água-vivas, moréia, caco de vidro, mordida de baiacu, ferrão de bagre e, pior ainda, pegar uma tribuzãna (viração de tempo com ventania muito, muito forte) no mar aberto sem ter pra onde correr pra se abrigar.
O mais perigoso de todos é a mangangava (palavra tupi), e tanto a do mar quanto a de terra. Mangangava terrestre é aquele vespão preto, com a bundinha amarela, que faz ninho em toco de pau e tem uma ferroada medonha. A mangangava do mar – também conhecida como peixe-pedra – é craque na arte da mimetização. Ela assume a cor do ambiente (formações rochosas) onde permanece imóvel. Até algas a sirigaita usa para se disfarçar. O perigo mora nos ferrões, que possui espículas venenosíssimas e, além da dor cruciante, provocam em alguns uma forte reação alérgica que podem – valei meu São Sebastião – levar um gajo à morte.
Isso não é nada, se compararmos com o que existe nos mares de outras plagas. Na inebriante Austrália, por exemplo, tem lá dois titiquinhas – um caramujinho e uma água-viva miudinha – que, dificilmente, o sujeito sobrevive para contar a história após manter contato com a pele. Basta relar. Mangangava é refresco perto deles.
Falando em sobreviver para contar a história, é muito, muito grande o número de pessoas que sobreviveram ao ataque de tubarões, e os especialistas explicam porque: os bichos só dão uma única dentada e vão-se embora, purcasadiquê a carne humana é muito ruim...
Verdade.
Mas o importante é não se aborrecer com isso tudo, porque – no fundo, no fundo – o grande perigo mesmo está é em terra...
O resto é refresco!
Nivaldo Simões