Este escriba aqui topou, na semana passada, com uma máquina motoniveladora da prefeitura insular trabalhando na rua Florentino G. Vieira Neto, uma travessa da avenida Princesa Isabel cujo início fica defronte ao Depósito Ilhabela de materiais de construção; lugar esse que vive tendo acidentes envolvendo motociclistas. Volta e meia tem motoqueiro se esborrachando por ali.
Antão. O que me chamou a atenção, ou melhor, me surpreendeu, não foi a motoniveladora, propriamente dita, mas, sim,o que ela estava fazendo: esparramando terra pela rua afora. O diabo é que a rua essa é, de cabo a rabo, toda pavimentada com bloquetes de concreto. Horas após a máquina ter feito o serviço caiu uma chuvinha que transformou em brejo a rua pavimentada.
Por que cargas d’água, o pá, uma rua pavimentada – e que é um dos principais acessos para o fundo da Barra Velha – estaria sendo terraplanada?!
Ingênua toda vida, dona Elzbieta – minha vovó lituana – acredita que a terraplanagem da rua talvez seja uma iniciativa da Administração, prumodiquê alegrar o coração dos ilhéus saudosistas.
Uia...
Vovó é danadinha mesmo. O raciocínio é simples. Como quase todas as ruas da área urbana do arquipélago foram sendo pavimentadas ao longo do tempo, o sábio povo da prefeitura estaria despavimentando algumas visando alegrar o coração dos ilhéus e ilhoas que até hoje suspiram e morrem de saudades da Ilhabela com ruas de terra. Além do que, com a terra ao invés do bloquete, fica muito melhor pra molecada bater uma bolinha.
Na sebastianense Cambury, só agora, depois de anos de muita discussão, é que foi pavimentada a principal via daquele bairro. Tinha um magote de gente que nem sequer queria ouvir falar em pavimentação, apesar das crateras que sempre surgiam após as chuvas.
O meu tio-avô Casimirus – que é mais pés-no-chão – tem outra tese para a despavimentação da rua. Uma não; duas teses. Depois de ver o lamaçal, meu tio voltou pra casa achando que o local estava sendo preparado para servir como campo de treinamento para alguma unidade militar. Como não existe nenhuma instalação militar na região, agora ele está achando que, tendo em vista a rua ser em aclive, a prefeitura estaria transformando a rua em uma pista de motocross.
Lembrando que a terraplanagem na rua pavimentada já havia sido realizada outras vezes, um gaiato disse que a terra estava sendo jogada na Florentino G. Vieira Neto simplesmente para tapar “us buracu”.
Mas rapaz, muito me admira bois, biste?! Deu vontade de dar uns cascudos no caboclo. Onde já se viu tamanha asneira: se fosse para tapar os buracos, bastaria colocar uns bloquetes novos ou, em última instância, jogar pó de pedra ou concreto. Nunca terraplanar a rua toda, coisa que dura apenas duas ou três chuvadas e depois escorre pro Canal... Sem contar que, quando não é lama, aquilo vira uma poeirama carquelenta, para desespero das gentis donas de casa e dos garbosos comerciantes locais.
Pragmática, dona Elzbieta vai direta ao ponto:
– Não seria mais fácil perguntar pra alguém da prefeitura?
Eu, sou obrigado a confessar, tenho medo de fazer isso. E explico porque. Um belo dia fui questionar a então secretária de obras sobre o fato de ela ter aprovado a construção um prédio com mais de oito metros de altura, que era e ainda é o máximo permitido pela lei municipal de uso e ocupação do solo insular. Questionando daqui, questionando dali, acabei levando uma carteirada da então secretária:
– Você por um acaso é engenheiro? Hein?! É?! Quem estudou engenharia aqui fui eu, e se eu estou dizendo que é assim, é porque assim é!
Foi então que nasceu meu medo e caiu a minha ficha, com as palavras de Dona Elzbieta reverberando na cabeça: os muito estúpidos e os muito inteligentes vivem bem no mundo; o homem de pouco valor – como este escriba aqui... – não tem paz.
Mas rapaz...
Nivaldo Simões