Era pequena, pequenina mesmo e já tomava conhecimento das primeiras lições de amor e respeito a um ente superior que mamãe chamava de Papai do Céu. Todas as noites, com frio ou calor, ao me deitar mamãe chegava à beira da minha cama e fazia orações comigo. Faz tanto tempo e eu não me esqueço. Sabemos todos da família como ela era religiosa. Católica fervorosa, dizia vovó.
Nas férias vinha passar uns dias conosco uma prima com a mesma idade e que passava muitos dias em casa. À noite, na hora de nos deitarmos mamãe fazia a mesma coisa e ela acompanhava, mas dizia que o seu Senhor era diferente e falava assim: a paz do Senhor, titia; a paz do Senhor, priminha. Jamais me esqueci dessas passagens.
Hoje, adultas, cada qual foi para um lado, mamãe já está muito cansada, a vida não lhe foi fácil, mas ela ainda está lá, muito viva, no seu cantinho, com as suas dores, os seus trejeitos, a sua forma de ser.
Falamos sempre, eu e minha prima, e nos recordamos daqueles tempos e ambas não esquecemos: cada qual tinha a sua forma de dizer, de rezar, de orar, mas o Senhor, Deus Onipotente, está presente em nossas vidas. Talvez seja por isso que somos fortes e enfrentamos a vida como ela é, brava, enérgica, exigente.
Penso comigo, no silêncio de cada noite e de cada alvorecer: como é bom ter um Ser Superior a olhar os nossos passos!
Se todos fossem assim, o muito seria diferente. O orgulho, a vaidade, a inveja, a luxúria, pecados capitais que invadem as nossas casas, fazem morada e aniquilam os predicados de um bom viver, acumulando problemas para a família inteira.
Mulher, você mulher – cuja liberdade foi conseguida com muito esforço e determinação –, não se acanhe de ter o seu minuto de silêncio para um encontro com o seu Deus que lhe dará forças sempre, abrirá os seus olhos, iluminará o seu caminho e fará firmes os passos trôpegos dos momentos de incerteza e difíceis de sua vida.
Respire fundo pelas narinas, expire pela boca e exercitando com gestos calmos, ganhe forças e a imensa coragem de viver mais e melhor não se envergonhando jamais de dizer ao mundo que você tem a vigiar e orientar a sua caminhada, um ente superior, seja de que crença for, porque a fé precisa habitar o seu mundo e a esperança imperar em sua vida.
Se lhe for dada a oportunidade de fazer a pequena oração na primeira infância, faça o mesmo com o seu filho, com o seu neto e esse exemplo não a abandonará jamais.
Fernando Siqueira