Criatividade é o ponto alto da vida da mulher, em todos os tempos. Podemos falar assim, porque admiramos desde sempre a posição da mulher, seja no lar, apenas e tão somente como mãe extremosa em tempos idos, ou após ela romper tabus, ganhar as ruas, ir ao trabalho e se desdobrar como artista dos sete instrumentos, artífice de gestões implacáveis, malabarista que consegue equilibrar-se no arame, de cedo à noite.
A vida atribulada da mulher tem algo misterioso, intangível como tentar agarrar o ar. Assim, dessa forma simples, porém, a um só tempo complexa, inexplicável e difícil de ser descrita, pode ser definido o feminino.
Quando começamos a falar sobre as qualidades intrínsecas da mulher, quando tentamos defini-la usando formas tangíveis, a essência se esvai, qual fumaça ou simples névoa que escapa inadvertidamente qual sopro divinal. O feminino é, sem dúvida, a fonte da nossa energia criativa, e, por mais que seja difícil, precisamos entendê-lo. Não é impossível se prestarmos atenção e nos dedicarmos a essa necessária tarefa.
Temos – homens e mulheres – um aspecto feminino (seja efetivamente nas mulheres) e no masculino (seja, mesmo controvertidamente nos homens), com características distintas e que influenciam o nosso comportamento.
O feminino nas mulheres se expressa diferentemente da forma como se manifesta nos homens, é óbvio.
Evidencia-se nas mulheres a criatividade feminina. A sociedade pauta a mulher para ser “feminina” sob todos os aspectos e sem nenhum arranhão, isto é, na acepção do termo. É a sociedade que determina quando ela se comporta de forma diferente ao estabelecido ou previsto, ela se torna alienada, discriminada, porque não cruza as pernas como a regra determina, não segura a xícara de café ou chá como “ensinado”.
Observando ou rememorando um pouco a mitologia e as lições de Joseph Campbell, um dos grandes mestres do assunto, ao analisar as histórias antigas de deuses e deusas, temos análises profundas e perfeitas para alguns, baseado no inconsciente não filtrado. Por outra, esses deuses e deusas tinham a sua origem no inconsciente humano, com uma conduta vista no comportamento individual de cada um de nós e da sociedade como um todo.
As deusas de outrora, mais conhecidas definiam-se e assim o é até em nossos dias como negativistas e masculinizadas.
As originais, entretanto, são vistas como fortes, em sua consistência, com auto-conhecimento profundo, transmitindo idéia de riqueza do feminino, deixando claro que ali brotava a criatividade, pela sua maneira de ser, com uma relação perfeita entre a criação (a idéia) e a criatura (a mulher).
Falar sobre deusas é palpitante, apaixonante até, mas ao fim conclui-se em verdade que elas eram insistentes e diretas na sua ajuda eficaz à família. Ao depois, elas foram exemplos e se transformaram em mitos que nós aceitamos e veneramos, porque transmitem conhecimento, força, garra, e partícipes de uma luta sem trégua, com exemplos dignificantes para o mundo, criando e recriando, desdobrando-se no lar, ainda como mãe extremosa, esposa, dona de casa, com um poder de administração ímpar. Fora de casa, como líder, inovadora, capaz de falar olhando nos olhos de circunstantes, subordinados ou superiores, dando soluções ou inovando sem precedentes.
Ao comentamos esse aspecto feminino, corajosamente, perpetramos oportunidades e alimentamos a nossa própria criatividade, valorizando-a sem medos ou preconceitos.
Fernando Siqueira