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Solteiras por opção
A preocupação com a profissão aparece de maneira marcante em diferentes fases da vida

A rápida mudança nas relações familiares, sobretudo o padrão “homem provedor e mulher cuidadora”, está relacionada com o fato de a profissão ter se tornado fundamental na vida das mulheres. Nesse contexto, o trabalho remunerado ganhou força nas últimas décadas como uma das justificativas mais expressivas para não investir no casamento.

Essa tendência é destacada no trabalho de pesquisa Vidas no singular: noções sobre “mulheres sós” no Brasil contemporâneo (clique aqui para ver o texto completo da tese), apresentado como tese de doutorado por Eliane Gonçalves no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisadora, orientada pela antropóloga Adriana Piscitelli, analisou informações de estudos de população e reportagens veiculadas na mídia impressa brasileira.

Ao lado de dados da Associação Brasileira dos Estudos de População (Abep) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram consultadas revistas femininas e jornais de circulação nacional. Com base em dados do IBGE, estima-se que o número de domicílios brasileiros ocupados por uma única pessoa subiu de 9% para 11% desde o ano 2000.

Narrativas de 12 mulheres de classe média residentes na cidade de Goiânia, com idades entre 29 e 53 anos, todas sem filhos e que moram sozinhas há mais de dois anos, complementaram o estudo.

“No universo das entrevistadas, a preocupação com a profissão aparece de maneira marcante em diferentes fases da vida. Ainda que não seja o único fator, todas afirmaram a importância do trabalho na viabilização da escolha de morar só”, disse Eliane, que atualmente é pesquisadora da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, à Agência FAPESP

Ela conta que, apesar de as narrativas permitirem conhecer a diversidade dos estilos de vida adotados, como as relações de amizade, experiências amorosas e projetos para o futuro, as entrevistadas se referiram positivamente à independência financeira gerada pela profissão com expressões como “sou dona da minha vida” e “não devo nada a ninguém”.

“Como o sentido de independência está vinculado à estabilidade financeira, conquistada no trabalho formal, o dinheiro é um elemento recorrente nas narrativas. Elas dizem ser donas do próprio dinheiro e ter, por isso, o destino em suas mãos. E é no mundo do trabalho que homens e mulheres se enfrentam como indivíduos aparentemente livres e iguais”, disse Eliane.

Segundo ela, o ditado popular “sair das rédeas do pai e cair nas rédeas do marido” expressa uma visão do casamento como cenário no qual se está “sob controle”. “Se historicamente para algumas mulheres sair de casa, estudar e trabalhar corresponde a um roteiro planejado, cujo destino final é o casamento, para a maioria das entrevistadas no estudo o casamento foi considerado secundário”, afirmou.

O trabalho destaca ainda que, sob a lógica da mídia, que pressupõe o casamento como condição privilegiada de saúde e felicidade, também não procede o rótulo de que as mulheres solteiras são percebidas como solitárias e insatisfeitas.

“Em certo sentido, morar sozinha não foi percebido com um sentido negativo de solidão entre as entrevistadas. Pelo contrário, trata-se de um sinal de status que lhes confere maior grau de mobilidade. Esse estilo de vida as distingue socialmente como mulheres autônomas e senhoras de si”, concluiu Eliane, que é co-fundadora do Grupo Transas do Corpo, organização não-governamental de Goiânia voltada a ações educativas e de pesquisa em gênero, saúde e sexualidade.

Para ler o estudo Vidas no singular: noções sobre “mulheres sós” no Brasil contemporâneo, clique aqui

Thiago Romero - Agência Fapesp



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